Os desafios do trabalho estiveram no centro da pauta do segundo dia do Farmapolis 2026. A mesa-redonda “Fim da Escala 6×1: Redução da Jornada para 40 horas semanais sem Redução de Salários”, nesta sexta, dia 19 de junho, reuniu lideranças sindicais e sociais para expor os impactos do atual modelo sobre a saúde física e mental, a qualidade de vida e as relações de trabalho.
A discussão partiu de uma realidade conhecida por milhões de trabalhadores e trabalhadoras: jornadas extensas, pouco tempo para descanso, convivência familiar reduzida e uma exaustão que, cada vez mais, se traduz em números: mais de 500 mil afastamentos por problemas de saúde mental apenas em 2025.
O peso invisível do trabalho doméstico sobre as mulheres
A diretora do Sindicato dos Servidores do Judiciário de Santa Catarina (Sinjusc), Jaqueline Alexandra Maccoppi, abriu a mesa com uma análise sobre a divisão sexual do trabalho. Para ela, não é possível discutir escala sem olhar para a realidade das mulheres.
“Quando as mulheres entraram no mercado de trabalho, não houve a distribuição do trabalho doméstico. As mulheres dedicam cerca de 20 horas semanais a esse trabalho de cuidado — invisível, não remunerado e que viabilizou que os homens ocupassem os espaços de tomada de decisão”, afirmou.
Jaqueline destacou que a maternidade não é uma experiência exclusivamente feminina, mas a sociedade se organizou com base na responsabilização das mães. “A mulher adoece e não é cuidada. A proteção da saúde materna exige uma compreensão ampla. Mais do que jornada, essa luta é sobre ética.”
Ela trouxe dados contundentes: as mulheres são 51% da população mundial, mas representam 75% dos pobres no Brasil. “O desenvolvimento verdadeiro é quando o crescimento econômico nos devolve dignidade”, concluiu, conclamando os homens a se engajarem na pauta.
Escravidão moderna
O presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil em Santa Catarina (CTB-SC), Mateus Graoske Mendes, foi enfático ao classificar a escala 6×1. “Não é uma escala, é um regime de escravidão moderna”, disse.
Mateus convidou o público a refletir sobre a rotina repetitiva que transforma a vida em “uma coleção de ausências”. “A saúde vai virando luxo. Os laços sociais se rompem. O sistema foi criado para que o trabalhador não tenha um território íntimo para se organizar e se reconhecer. Há um esvaziamento existencial.”
Para ele, a exaustão não é acidental. “O corpo humano não foi feito para o trabalho ininterrupto. O esgotamento é o organismo se recusando. Para o patrão, ser eficiente é não sentir nada. Mas as jornadas exaustivas apagam o que faz da gente ser humano: as subjetividades.”
Mateus defendeu a redução da jornada sem cortes salariais como “medida civilizatória”. “Reduzir a jornada é devolver às pessoas o direito de se reconhecer como ser humano. Nenhum patrão deu direito de graça aos trabalhadores. A CTB se insere nessa luta pelo direito inalienável de vida e pela nossa dignidade. Não vamos aceitar ser peça de reposição.”
Pesquisa inédita revela perfil de quem vive na 6×1
O presidente do Sindicato dos Comerciários do RJ, Marcio Ayer, apresentou dados preliminares da pesquisa Atlas da Escala 6×1, desenvolvida em parceria com o Observatório do Estado Social Brasileiro da Universidade Federal de Goiás (UFG). Os números escancaram o perfil dos trabalhadores submetidos à escala:
- 34 milhões de trabalhadores com jornada acima de 40 horas semanais (dados da RAIS entre dezembro de 2024 e maio de 2025);
- 67% ganham até 1,5 salário mínimo;
- 33% gastam mais de 1h30 por dia em deslocamento;
- 67% trabalham além da jornada contratada;
- 88% relatam impacto negativo na vida pessoal.
A pesquisa também revela um recorte racial e de gênero: 55,57% são mulheres, 63% são pretos ou pardos e 45% são trabalhadoras negras que ganham até um salário mínimo.
“Não é um modelo produtivo. O problema central do trabalho hoje é o controle do tempo — ela não organiza apenas o trabalho, mas a vida inteira do trabalhador”, afirmou Ayer.
Ele convocou a plateia a acompanhar a audiência pública agendada para 1º de julho no Senado e pediu pressão popular para que a votação ocorra antes das eleições. “O principal desafio é votar no Senado antes do pleito. Precisamos pressionar ao máximo para avançar.”
“Os trabalhadores estão comprando a ideia de que vai gerar desemprego”
Odinei Milkevicz, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Chapecó e Região (STIMMME), trouxe uma perspectiva pessoal. Ele lembrou do pai, que sofreu um acidente de trabalho após anos em uma agroindústria e foi culpado pelo ocorrido.
“Os próprios trabalhadores estão comprando a ideia de que a redução da jornada vai gerar desemprego e quebrar as empresas. Precisamos reforçar essa luta. Que mundo queremos deixar para os nossos filhos?”, questionou.
Odinei celebrou o fato de a pauta estar sendo tratada no Farmapolis: “Somos utilizados pelo capital como mão de obra barata. A partir do momento em que nos organizamos, podemos mudar isso”, afirmou.
Saúde é essencial, mas os trabalhadores da saúde também precisam descansar
A vice-presidenta do Sindicato dos Farmacêuticos de Santa Catarina (Sindfar-SC), Letícia Lis, trouxe um alerta específico para a categoria. Ela apontou que há uma tentativa de excluir os serviços de saúde da redução da jornada sob o argumento de que são atividades essenciais.
Segundo Letícia, o trabalho doméstico e invisível que pesa sobre as mulheres colabora para manter essa estrutura. São profissões que estão sob uma balança desigual, observou, já que esse argumento da essencialidade não é considerado na hora de reajustar o salário.
Letícia reforçou que a luta pela redução da jornada é também uma luta pela valorização profissional e pelo direito ao descanso digno de quem cuida da saúde da população.
A mesa foi mais um dos debates que integram a programação do Farmapolis Brasil 2026, que segue até sábado (20) no Centro de Eventos Centrosul, em Florianópolis.