A recente regulamentação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre todas as etapas de produção da cannabis para fins medicinais no Brasil ampliou a segurança para atuação profissional no chamado mercado verde. O Simpósio “Uso Terapêutico da Cannabis”, realizado neste sábado (20 de junho) no último dia do Farmapolis 2026, reuniu referências da pesquisa, da prática clínica e das políticas públicas de saúde relacionadas a esta área de conhecimento.
O seminário também debateu os aspectos econômico e político do uso de terapias à base de cannabis, considerando as barreiras históricas impostas pela discriminação e a necessidade do fortalecimento da cadeia nacional.
Nos dois últimos anos, o número de pacientes dobrou: são 870 mil pessoas que utilizam a cannabis para tratar casos como dor crônica, manejo do estresse, epilepsia, transtorno de estresse pós-traumático, diminuição da enxaqueca, TEA e TDAH, entre outras aplicações. Além da recente regulação da Anvisa, esse incremento se deve ao aumento de produtos derivados. São mais de 2 mil produtos, com diferentes vias de administração, como sublingual, bucal, oral, nasal, inalatória e dermatológica. Segundo dados apresentados no encontro, estima-se que o setor tenha movimentado mais de R$ 800 milhões em 2024.
Apesar da ampla documentação sobre a eficiência da planta, a ignorância e preconceito sobre o assunto segue impondo barreiras à pesquisa e condenando pacientes. O congresso evidenciou a necessidade de atuação política para que a cannabis deixe de figurar na lei do narcotráfico e para ser reconhecida como um ativo pelo fortalecimento da agricultura, indústria e associativismo.
Potencial farmacoterapêutico
O neurocientista e professor pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL), Rafael Mariano de Bitencourt, desenvolveu diversos estudos publicados sobre o tema. Um deles relata pesquisa que acompanhou crianças com TEA por seis meses, alcançando a retirada total dos medicamentos ao final do prazo.
O pesquisador falou sobre os mecanismos de ação da cannabis. Segundo Rafael Bitencourt, a pesquisa permite saber como ela atua no cérebro e descobrir as funções desse sistema, mostrando seu potencial farmacoterapêutico. Do ponto de vista da farmacologia, a cannabis representa uma janela terapêutica segura. Ele destacou os benefícios no controle da homeostase — equilíbrio do organismo — e o conceito de deficiência endocanabinoide. “A cannabis é como um baú de tesouros, com um grande potencial farmacoterapêutico”, afirmou.
Protagonismo farmacêutico
A professora da UNESC, Flavia Karine Rigo, falou sobre o amplo campo de atuação do farmacêutico em terapias com uso da cannabis. O profissional pode atuar desde a escolha genética, na escolha da semente, até o cuidado do paciente. “A cannabis hoje é parte da prática clínica e precisa do farmacêutico para o acompanhamento, pois é um tratamento individualizado para acompanhar a dosagem e reações adversas. Podemos ser protagonistas nessa área”, afirmou.
A coordenadora do Grupo de Trabalho sobre Cannabis do Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo (CRF-SP), Margarete Akemi Kishi, pesquisadora desde 2014, coordena um centro de pesquisa que considera o uso da cannabis “da semente ao paciente”. “Quem tem as práticas integrativas na raiz sabe a importância desse ecossistema da cannabis”, afirmou.
A pesquisadora focou sua apresentação nos marcos regulatórios: a Portaria 244 e as RDCs 1011, 1012, 1013, 1014 e 1015, que estabelecem o caminho da pesquisa científica, da produção industrial, o sandbox regulatório para associações e a produção industrial de medicamentos.
Jean Medeiros, da organização Cannabis sem Fronteiras, contou que a associação de Florianópolis nasceu em 2022, após visita do professor sul-africano Rob Sleep, que desenvolveu uma técnica de extração do óleo de cannabis. O palestrante relatou que, a partir dos conhecimentos, tratou a própria sogra com um protocolo baseado em óleo de cannabis paralelamente ao tratamento tradicional, e ela teve cura. Começou então a distribuir esse conhecimento pelo Brasil. Segundo ele, o associativismo nasce de uma real necessidade de lutar pelo acesso e pela liberdade da planta. “Aqui estamos falando sobre ciência, mas tem pessoas sendo presas por isso. Tem todo um avanço, mas precisamos da reparação dessas pessoas condenadas.”
Pedro Sabaciauskis, da Santa Cannabis, contou que a organização tem sete anos, com sede em Itapoá, onde mantém o laboratório perto do cultivo. A organização tem 13 mil pacientes cadastrados e mais de 1.200 pets em diversos estados.
Segundo Sabaciauskis, os farmacêuticos são peças fundamentais na associação, presentes desde o plantio, na Responsabilidade Técnica, na produção, no controle de qualidade e na farmacovigilância. A organização tem certificado REBLAS no cultivo, no extrato e COA do produto acabado. Conclamou os farmacêuticos a reforçarem essa luta pelo fortalecimento da produção local, da indústria farmacêutica e, consequentemente, do trabalho farmacêutico e da soberania. “Precisamos parar de bancar indústrias internacionais para que se compre aqui, do pequeno e médio produtor rural”, conclamou.
Assista ao debate, que contou com mediação da farmacêutica Karen Denez: Aqui