Vencer o negacionismo para acabar com o desfinanciamento e superar a crise

Com o objetivo de discutir a situação da saúde no Brasil neste momento, a primeira mesa do 10º Congresso da Federação Nacional dos Farmacêuticos (Fenafar) reuniu para debate o Assessor Técnico da Vice-presidência da Fiocruz, Jorge Costa e a Diretora da Fenafar, Célia Chaves, mediados pela Coordenadora Geral da Escola Nacional dos Farmacêuticos (ENFar), Silvana Nair Leite.

Iniciando sua explanação Célia Chaves lembrou que em 2009, há exatos 13 anos, foi realizado também na Bahia o 6º Congresso da Fenafar, e que os temas discutidos eram basicamente os mesmos. “Infelizmente, pois aquelas pautas ainda não foram vencidas, mas por outro lado mostra que a nossa luta em defesa da saúde no Brasil não é de agora, ela vem de muito tempo”.

Segundo ela, nós não temos como falar sobre saúde no Brasil sem falar da Pandemia da Convid-19. “Estamos vivendo uma crise sanitária, mas também humanitária, econômica, social, ambiental e política”, disse.

Para Célia, o enfrentamento dessa situação se dá pelo exercício pleno da cidadania e das liberdades democráticas, “sem isso não vamos vencer essa crise”.

“No entanto está difícil exercermos plenamente a nossa cidadania num país onde a violência e o fascismo afloraram da forma como aconteceu no Brasil. Como cidadãos precisamos retomar a nossa cidadania para conseguir vencer tudo isso”.

De acordo com a diretora da Fenafar “para falar da saúde no Brasil, é preciso também falar sobre financiamento, ou no caso brasileiro o desfinanciamento”.

Ela alerta que, “embora alguns insistam em dizer que o problema do SUS é de gestão e que sendo sanada essa questão tudo estará resolvido, eu não sou adepta desse pensamento¨.

“A questão dos SUS só vai ser resolvida, realmente, quando for resolvida a questão do financiamento”, destacou.

Celia lembra que “mesmo antes da pandemia de covid-19, nós já tínhamos recursos escassos para dar conta do tamanho que é o SUS e dar conta do preceito constitucional de que saúde é direito de todos e dever do estado¨.

“Mesmo antes da pandemia já tínhamos a tal da EC da Morte (EC 95) que congelou o piso da saúde e reduziu os recursos para a área em 22 bilhões de reais, segundo dados do próprio Ministério da Saúde.

“Não há como dizer que não está caracterizado um desfinanciamento do Sistema Único de Saúde.

Celia Chaves fez ainda um resgate histórico de todas as lutas dos farmacêuticos e farmacêuticas pelo financiamento do SUS. Lembrou das variadas campanhas entre elas a “Primavera da Saúde”, e o “Saúde mais 10” e todas as demais lutas contra os ataques que a saúde e o SUS sofreram nas últimas décadas. “Nós estamos lutando há muito tempo, estamos tentando, ainda não conseguimos, mas não vamos desistir”

Interromper o negacionismo, este ano.

Jorge Costa, Assessor Técnico da Vice-presidência da Fiocruz, iniciou a sua fala contando um pouco da história e também todas as atividades desenvolvidas pela instituição. Em seguida apresentou dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sobre a evolução demográficos da população brasileira agrupados de 10 em 10 anos iniciando em 2012 e fazendo uma projeção até 2042.

Segundo ele, há um avanço positivo no aumento da expectativa de vida da população. Isso claramente é consequência do investimento e da melhoria da oferta de medicamentos e da atenção à saúde, mas também apresenta um dado preocupante, essa população na medida em que envelhece vai exigir uma demanda maior de serviços medicamentos e diagnósticos.

Jorge Costa alerta que diante dos crescentes cortes de recurso para a saúde, a tendência é que as projeções do IBGE não se concretizem, exatamente pelo subfinacimento e não sustentabilidade do SUS e da falta de oferta de insumos necessários para a população.

“Essa é uma luta que nós temos na Fiocruz e que encontra eco na Fenafar no Conselho Federal de Farmácia (CFF) e outros fóruns que discutem a saúde pública de forma séria focada no bem-estar da nossa população”, disse.

“Quando falamos em negacionismo, observado de forma lamentável nos últimos três anos no Brasil, é lamentável e triste também ver profissionais de saúde vocalizando esse negacionismo. Enquanto essa turma é negacionista em relação a ciência e a importância da saúde para a vida, assistimos os países mais desenvolvidos investindo fortemente na pesquisa”.

O assessor técnico da Fiocruz, ressalta que o mundo busca solução para diversas doenças. “No caso do câncer países desenvolvidos estão trabalhando fortemente na busca de alvos terapêuticos para a cura do Câncer, por exemplo. Isso é bom, mas isso se traduz em dependência tecnológica e dependência financeira brasileira”.

“Logo nós vamos pagar caro por medicamentos que vão decidir se a pessoa vai viver ou não, que vão decidir a qualidade de vida dessa pessoa. Nós estamos muito dependentes do que é pesquisado lá fora, precisamos interromper esse negacionismo, este ano, temos que retomar o investimento no Sistema Público de Saúde”, disse.

Jorge Costa concluiu sua fala apresentando um último slide e ressaltando a necessidade de superação dos desafios que são impostos, seja no campo político, econômico ou da ciência. No slide a foto do filho que é farmacêutico. “O maior desafio do meu filho não foi ter se formado em farmácia, o desafio maior é que ele se formou em farmácia sendo surdo e paralitico cerebral. Os desafios existem para serem superados. ”

Josemar Sehnem – Redaçao Fenafar

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