Fiocruz reforça protagonismo feminino na saúde e no combate à covid-19

Segundo dados do Ministério da Saúde, mulheres representam 65% dos profissionais ocupados no setor público e privado. Em carreiras como Fonoaudiologia e Nutrição, mulheres alcançam quase 90% de participação.

 

 Superar questões complexas, como a desigualdade de cargos e salários no mercado de trabalho, servem de estímulo para as mulheres lutarem pela garantia de seus direitos e não permitirem mais serem colocadas à margem. Com isso, tornam-se cada vez mais capacitadas a fim de conquistarem o seu merecido espaço. Mesmo com as disparidades, presenciamos um momento que reflete o protagonismo que as mulheres vêm assumindo em várias frentes.

Segundo dados divulgados, em 2020, pela Biblioteca Virtual em Saúde, do Ministério da Saúde, as mulheres são a principal força de trabalho da saúde, representando 65% dos mais de seis milhões de profissionais ocupados no setor público e privado, tanto nas atividades diretas de assistência em hospitais quanto na Atenção Básica. A publicação, baseada no Censo do IBGE, aponta que em algumas carreiras, como Fonoaudiologia, Nutrição e Serviço Social, as mulheres alcançam quase a totalidade, ultrapassando 90% de participação. Em outras, como Enfermagem e Psicologia, estão com percentuais acima de 80%, também bastante expressivos, tanto que a Associação Nacional dos Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental (ANESP) declarou, em 2020, que a guerra contra a covid-19 tem rosto de mulher.

Mulheres que fazem a diferença

Entrevista com a coordenadora de Gestão de Pessoas do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), Verena Maciel Novaes Khazrik

O que representa para você estar no cargo de gestora de Recursos Humanos do IFF/Fiocruz?
Verena:
 Estar no cargo de gestora de Gestão de Pessoas do IFF/Fiocruz é um grande desafio, pois somos a maior unidade da Fiocruz em número de servidores, mas ao mesmo tempo para mim tem um significado especial, já que representa confiança e respeito com o trabalho desenvolvido desde o início da minha trajetória no Instituto, como também na condução da minha equipe e dos processos de trabalho.

O Instituto possui cerca de 2.060 trabalhadores, independente do vínculo, sendo 1.474 mulheres, muitas em cargos de liderança. Como você avalia o papel das mulheres do IFF/Fiocruz?
Verena:
 As mulheres no mercado de trabalho têm desenvolvido um papel de protagonismo e no IFF/Fiocruz não é diferente, sendo inseridas cada vez mais em atividades de liderança. Atualmente, possuímos 64 cargos gerenciais e 42 são ocupados por mulheres. As gestoras do Instituto possuem diferenciais na condução de suas equipes, pois apresentam capacidade de reconhecer emoções em si e nos outros, o que facilita a administração de conflitos, respeitam as diferenças, têm disponibilidade de se colocar junto às equipes e “arregaçar as mangas”, quando necessário. A sensibilidade feminina amplia a nossa visão na condução das equipes e na solução de problemas.

Quais as mulheres que te inspiram na vida e na profissão? Por quê?
Verena:
 Na vida, a mulher que me inspira é a minha mãe por sua capacidade de resiliência e por sua dedicação à família. Na minha vida profissional, tive o prazer de conhecer e trabalhar com muitas mulheres que me inspiraram, e me inspiram até hoje, e não poderia deixar de citá-las: Maria Verônica, Sueli Coelho e Guiomar Lira, gratidão por acreditarem em mim, me incentivarem e por me prepararem para estar na posição que me encontro.

Destaco que tive a oportunidade de trabalhar com muitas mulheres ao longo da minha vida profissional no IFF/Fiocruz, conhecê-las e ouvir suas histórias me faz enxergar que todas as mulheres são inspiradoras, cada uma do seu jeito. Todas temos nossos encantos, belezas, vitórias, alegrias, medos e derrotas, e sabemos como ninguém “dar a volta por cima”, colocar um sorriso no rosto e seguir em frente.

Entrevista com a Coordenadora-Geral de Gestão de Pessoas (Cogepe) da Fiocruz, Andréa da Luz Carvalho

A maioria dos servidores da Fundação são mulheres (56,2%) – já em relação aos terceirizados, 46,5% são mulheres – muitas em cargos de liderança. Como você avalia o papel da mulher no mercado de trabalho dentro e fora da Fiocruz?
Andréa:
 A mulher vem ao longo dos últimos 20 anos acelerando um processo de maior capacitação que os homens e ocupando posições de chefia na sociedade. Porém, as barreiras do machismo continuam sendo impeditivas para o alcance de cargos no alto escalão.

Você integra a coordenação colegiada do Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça da Fiocruz, composto em sua maioria por profissionais mulheres. Como é a atuação do Comitê? Quais pontos destaca?
Andréa: O Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça da Fiocruz existe desde 2009, com a função de incentivar a construção de políticas e ações relacionadas às questões de gênero e raça em todas as áreas de atuação da Fiocruz. Destaco nossas ações de apoio à elaboração de ações afirmativas para cotas para negros e indígenas; oferta de iniciativas voltadas para a formação nos aspectos de raça e gênero; e execução de eventos voltados à reflexão e valorização da diversidade e combate ao racismo, LGBTfobia e violência no trabalho. Todo ano promovemos o evento “Trajetórias Negras”, que valoriza as histórias de servidores negras e negros da Fiocruz.

Quais as mulheres que te inspiram na vida e na profissão? Por quê?
Andréa: Várias inspiraram minha trajetória de vida e profissional, mas citarei uma, que é a Angela Davis, que fala da posição importante de não só ser contra o racismo, mas sim ter uma posição ética de ser antirracista. Ser antirracista é pensar em combater o racismo estrutural que subjaz e compõe a sociedade capitalista. Ter essa clareza, aumenta muito minha responsabilidade como gestora pública. Por isso, é fundamental atuar em cada área da Fiocruz para ampliar a presença de negras e negros na nossa instituição e garantir que seu trabalho seja reconhecido.

Entrevista com a reitora e professora do Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Denise Pires de Carvalho

O que representa para você ser eleita a primeira reitora mulher da história da UFRJ?
Denise: Ter sido escolhida reitora da UFRJ em primeiro turno das eleições, representa o resultado de muita dedicação e das escolhas corretas que fiz durante a minha trajetória acadêmica na Universidade na qual completei graduação, mestrado e doutorado. Sempre me envolvi muito com as atividades de ensino, pesquisa, extensão, além da administração universitária, que marcou minha trajetória desde muito cedo na carreira docente. Fui representante da classe de docentes em diversos fóruns e colegiados, dentro e fora do Centro de Ciências da Saúde, o que me tornou mais conhecida. Nesses fóruns, sempre lutei pelo modelo de universidade pública, gratuita, laica, inclusiva, democrática e com muita qualidade. Minha equipe atual é composta por profissionais altamente qualificados que acreditaram no nosso programa de trabalho para a UFRJ.

Ter sido a primeira reitora mulher eleita em 100 anos de Universidade, confirma o machismo estrutural presente na nossa sociedade patriarcal. Inúmeras mulheres poderiam ter sido reitoras antes de mim, mas elas sequer se candidatavam. Havia muito poucas chances para nós, infelizmente. Estamos muito longe da igualdade de gênero no país e no mundo.

O que representa para você ser eleita como membro titular da Academia de Medicina do Rio de Janeiro (AMRJ), ocupando a cadeira 68, cujo patrono é Oswaldo Cruz?
Denise: Me senti muito honrada pelo reconhecimento dos médicos de renome que pertencem à AMRJ, inclusive de alguns membros que foram meus professores na UFRJ. Tive a grande honra de ter sido a primeira mulher a dirigir o Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF), em 2010. Ter sido eleita, em 2021, para ocupar a cadeira da AMRJ, cujo patrono é Oswaldo Cruz, me deixou profundamente sensibilizada, porque a história do IBCCF da UFRJ se entrelaça com a da Fiocruz nesses 100 anos de UFRJ e 121 anos de Fiocruz. O Dr Oswaldo Cruz é fonte de inspiração para muitas gerações de médicos brasileiros.

Quais as mulheres que te inspiram na vida e na profissão? Por quê?
Denise: Mulheres autênticas, fortes, que seguem as suas trajetórias e vivem em busca dos seus sonhos profissionais e pessoais. Na ciência, Marie Curie e Rita Levi-Montalcini, nas artes, Tarsila do Amaral e Clarice Lispector. Na atualidade, Malala Yousafzai e Jacinda Ardern. Na profissão, no Brasil, Nísia Trindade (presidente da Fiocruz) e Márcia Barbosa.

Agência Fiocruz

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