Por: Ronald Ferreira dos Santos – 23/03/2026
Coordenador do Movimento Nacional Saúde pela Democracia + SUS é + Brasil
O debate econômico nos grandes jornais brasileiros tem se tornado um exercício de cinismo retórico. Ao analisarmos as recentes matérias que pregam o fim dos pisos constitucionais da saúde e educação, especialmente o editorial de O Globo desse final de semana, percebe-se uma omissão deliberada: o orçamento público não está “quebrado” por excesso de direitos, mas sim sequestrado por uma estrutura que privilegia o rendimento passivo do sistema financeiro.
A Cortina de Fumaça do Ajuste Fiscal e o Sequestro do Direito à Saúde
O debate sobre as contas públicas no Brasil tem sido conduzido sob uma redoma de falácias que priorizam a rentabilidade financeira em detrimento da vida. Várias matérias jornalísticas recentes da mídia hegemônica sintetizam esse “senso comum” fabricado: a primeira, ao tratar o crescimento dos gastos com saúde e educação como uma “ameaça ao equilíbrio fiscal”, e a segunda, ao sugerir a desvinculação dos pisos constitucionais como a única saída para a governabilidade. Em ambos os textos, o diagnóstico é o mesmo: o SUS “custa caro” e os direitos sociais “engessam” o Estado.
No entanto, essa narrativa omite um dado escandaloso. Enquanto se discute o corte de centavos na assistência farmacêutica ou na atenção básica, o orçamento público permanece drenado por uma estrutura de juros e encargos da dívida que beneficia, quase exclusivamente, o sistema financeiro. Trata-se de uma defesa descarada do investimento parasitário: blinda o lucro dos rentistas enquanto rotula como “insustentável” o financiamento de um direito fundamental.
1. A Inversão de Prioridades: Direito vs. Juros
As matérias jornalísticas apresentam o gasto com o SUS como uma “ameaça à sustentabilidade”. No entanto, elas ocultam que o maior ralo de recursos públicos não são as vacinas ou os hospitais, mas o pagamento de juros e encargos da dívida pública.
Enquanto os pisos de saúde e educação são tratados como “gastos rígidos” que precisam ser flexibilizados, os gastos com o sistema financeiro são tratados como intocáveis e sagrados. Há um descaramento em sugerir que o Estado não tem dinheiro para o mínimo existencial da população, enquanto mantém uma política de juros altos que garante transferências bilionárias de riqueza para o setor bancário.
2. A Desvinculação como Estratégia de Pilhagem
Como aponta a Profa. Élida Graziane em uma de suas aulas, mecanismos como a DRU (Desvinculação de Receitas da União) e a EC 95 (Teto de Gastos) não foram criados para “organizar a casa”, mas para desviar recursos que deveriam ir para a Seguridade Social diretamente para o superávit primário — ou seja, para pagar credores.
As matérias jornalísticas defendem a “desvinculação” alegando dar “liberdade ao gestor”. A omissão descarada aqui é que essa “liberdade” serve apenas para que o governo possa cortar da saúde e repassar ao mercado financeiro. O “investimento parasitário” é protegido por uma blindagem institucional que retira o dinheiro da base da pirâmide (quem usa o SUS) e o entrega ao topo (quem vive de juros).
3. O Mito da Eficiência vs. A Realidade das Renúncias Fiscais
Outro ponto de ocultação nas matérias é o silêncio sobre as renúncias fiscais. Jornais atacam o piso da saúde, mas raramente questionam as isenções de impostos dadas a setores que não geram contrapartida social proporcional.
A Incoerência: O discurso jornalístico diz que “falta dinheiro”.
A Omissão: Não se menciona que a União abre mão de centenas de bilhões em arrecadação (muitas vezes beneficiando o próprio sistema financeiro e grandes corporações) e que o patrimônio dos super-ricos segue subtributado.
4. A Criminalização do Direito Social
O tom das matérias jornalísticas busca transformar o direito constitucional à saúde em um “problema contábil”. Ao fazer isso, o jornalismo econômico protege o parasitismo financeiro ao naturalizar a ideia de que a saúde é um “custo” e o lucro dos bancos é um “indicador de saúde do país”.
A Profa. Élida Graziane alerta para o fenômeno do “desfinanciamento”: não é que o recurso não exista; ele está sendo deliberadamente desviado da sua finalidade constitucional para alimentar o sistema de crédito e a especulação.
O Orçamento como Campo de Batalha
O descaramento das matérias reside em fingir que a economia é uma ciência exata e neutra, quando, na verdade, é uma escolha política de quem deve viver e quem deve lucrar. Defender o fim dos pisos da saúde enquanto se mantém a prioridade absoluta para o pagamento de juros é defender a morte da população para garantir a rentabilidade de ativos parasitários.
O jornalismo que omite essa transferência de renda do SUS para os bancos não está informando o cidadão; está fazendo assessoria de imprensa para o mercado financeiro.