; Saúde - Fenafar

Sidebar

1

Reproduzimos matéria do portal Vermelho, que conversou com alguns usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) durante ato em defesa da saúde pública no Brasil realizado nesta quarta-feira na Assembleia Legislativa de São Paulo. Todos foram unânimes na defesa do SUS identificando também os desafios para que o sistema seja aprimorado e não extinto, como prega o novo ministro da saúde do governo ilegítimo de Michel Temer, Ricardo Barros (PP_PR).

 

Remia Kacule Kongolo, 35 anos, é angolano, formado em saúde pública na república democrática do Congo, está na condição de refugiado no Brasil. Usuário do SUS há três meses ele elogia o sistema de saúde do país. Gostou do funcionamento, principalmente como foi atendido em São Paulo, quando esteve doente e precisou procurar um posto do SUS. “Isso (acabar com o SUS) não é para prejudicar é para matar o povo do Brasil, principalmente, quem está em vulnerabilidade como refugiados, moradores de rua”.

Antonio Leandro dos Santos, aposentado, conselheiro municipal de Pindamonhangaba

Acompanha o SUS desde a criação. Para ele é o melhor convenio que existe. Lembrou que os planos de saúde quando tem que fazer qualquer exame média e alta complexidade eles mandam para o SUS e não cumprem a cobertura para o conveniado do que ele necessita. “Querem acabar com a CGU que fiscaliza os planos. Se acontecer isso teremos a recessão do sistema público. Acho que todos os brasileiros tem que combater essa proposta. O SUS é universal, um sistema que você chega só com o RG e é atendido em qualquer lugar do pais. Agora querem acabar com ele. Eu cho que isso não é democracia. Democracia é manter as coisas boas que tem no pais”.

Fatima Neves, presidente de Ong Instituto de cidadania Padre Josimo Tavares

“Quem está na periferia de São Paulo que vê um povo tão excluído e quanto vê a grande conquista que é ter um posto próximo de casa, um atendimento de qualidade para todo mundo e você não tem que pagar. E imaginar que isso tudo está em risco. É o momento da mais preocupante”, afirmou Fátima.Para ela a saúde não deveria ser vista como mercadoria. Fátima pensa que existem muitos desafios para a saúde pública, entre eles a comunicação com o público. “Se você sabe que vai esperar muito tempo você reage melhor. Eu utilizo o sistema, a minha mãe, a família inteira. O que a gente vê como dificuldade é essa questão da comunicação mas as coisas melhoram quando você estabelece o diálogo com os profissionais das unidades. Eu ocupo, acho que nós temos que ocupar porque é nosso”.

Rosane, 67 anos, trabalhadora do lar, conselheira estadual de saúde.

Ele nunca teve plano de saúde, até que aos 59 anos descobriu um câncer e precisou de cuidados médicos mais frequentes. Fez todo o tratamento pelo SUS e se mostrou muito satisfeita com a acolhida pelo sistema. “Olha vai ser muito triste se acabar. Sempre fui muito bem atendida em Rio Claro. Lá o SUS funciona. As pessoas elogiam. Porque é um direito de todos. A assistência é integral e seria muito triste que acabasse”.

Bruno Almeida, assessor parlamentar, 32 anos

“Desde que eu nasci uso o SUS e baseado neste contexto do ministro é muito fácil falar. É fácil querer cortar. Ele nunca usou o SUS não sabe como funciona e não sabe o que precisa ou não. Devido a isso, a esse argumento infeliz é a gente da base, da periferia que acaba sendo penalizado por isso”, disse. Ele lembrou que o sistema tem falhas e muitas vezes é ineficaz e atribuiu isso a interesses dos planos privados. “Infelizmente a gente sabe que não funciona porque se funcionar direito vai acabar com os convênios médicos e a gente sabe que tem gente por trás com interferência direta no SUS”, opinou.

José Aparecido, 54 anos, assessor parlamentar

“Espero que isso não aconteça. Acredito que é uma fase. Espero que o SUS continue. Até porque ele atende todo mundo. Eu sou usuário, a minha família toda. Meu pai tem 84 anos tem alzheimer, toma remédio contínuo e a gente pega no SUS, um remédio de alto custo. Se não fosse isso ele já teria falecido porque o alzeheimer é progressivo. Meu pai é aposentado e ganha salário mínimo. Ele não teria condições de comprar. Embora seja criticado, e eu acho que é porque todo mundo usa. Por outro lado tem poucos recursos mas, na minha opinião, o SUS é bom por isso porque atende todo mundo. Além dos recursos, acho que precisa melhorar a gestão”.

 

Fonte: Vermelho, Por Railídia Carvalho

Publicado em 19/05/2016

“Nenhum passo para trás”. Esta foi a principal mensagem levada pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS) ao Ato em Defesa do SUS, realizado nesta quarta-feira (18) na Assembleia Legislativa de São Paulo. O evento ocorre um dia após o ministro interino da Saúde, Ricardo Barros, afirmar que o tamanho do SUS precisava ser revisto.

 

Nesta quinta-feira (19) os movimentos devem se manifestar durante encontro no centro de exposições Center Norte, em São Paulo, em que está prevista a presença do ministro. O Senado Federal convocou Barros para dar esclarecimentos naquela casa sobre as declarações relacionadas ao SUS. Nesta quarta-feira (18), o ministro cancelou participação em audiência na Câmara dos Deputados. Na ocasião, movimentos sociais protestavam contra os planos da pasta para o SUS.

O presidente do CNS, Ronald Santos, acredita que o momento pede engajamento dos atores que podem e precisam defender a saúde pública. Segundo ele, não se deve admitir nenhum retrocesso nos avanços já conquistados. “O SUS trouxe dignidade e cidadania a milhões de pessoas com programas como o Mais Médicos, Farmácia Popular, SAMU e outros. O CNS não aceitará nenhum passo atrás em torno dos avanços na saúde”, avisa.

Desde a década de 1990, a luta em favor do SUS nunca enfraqueceu. Vale lembrar a Primavera da Saúde, que rendeu a Lei Complementar 141/2012, o movimento Saúde +10, que no desenrolar chegou à PEC01/2015, e a criação da Frente Nacional em Defesa do SUS, que reúne governadores, senadores, deputados, prefeitos e outros agentes públicos.

Para manter a mobilização em torno da defesa da saúde pública, o CNS informa que alinhará parcerias com os Conselhos Estaduais de Saúde para a realização de atos como o de São Paulo em todas as partes do Brasil. A ideia é avançar nas diretrizes aprovadas pela 15ª Conferência Nacional de Saúde, realizada em dezembro de 2015.

Democracia

Outro tema abordado no Ato em Defesa do SUS é a democracia brasileira. A conselheira Ana Rosa, representante da Central Única dos Trabalhadores (CUT) no CNS, lembra os tempos difíceis para chamar atenção ao que ocorre hoje no Brasil. “Eu jamais pensaria poder ver outro momento delicado em nossa democracia. Temos de ficar atentos e defender o SUS, que é hoje uma das maiores conquistas da nossa democracia”, diz.

Por sua vez, Ronald afirma que a Democracia Participativa é o resultado das conquistas da Constituição de 1988. “Temos de defender a democracia. Sem democracia não teremos o SUS. Muito se engana quem pensa que pode haver SUS sem democracia. Uma coisa caminha ao lado da outra”, finaliza.

Na opinião de Ronald, a mobilização e a capacidade política do movimento social dialogar com o povo é que fortalecerá a defesa do SUS. “Precisamos falar com o povo nos diferentes espaços. Vai ser uma oportunidade ímpar de dialogar com o povo a partir da realidade concreta dele que é a assistência social, a saúde e previdência”, defendeu o dirigente.

Saúde privada

Estender a luta para o povo é fundamental para o conselheiro de saúde da cidade de São Paulo, Francisco Freitas. Recém-eleito coordenador da comissão política de saúde do conselho da capital paulista, ele lembrou que o movimento para desmoralizar o SUS e depois desmantelar vai crescer.

“Há um movimento que já vinha e que busca a privatização da saúde. É preciso estender a luta para o povo nos bairros, sindicatos, feiras. É preciso também fazer com que os movimentos sociais se unifiquem para combater essa política nefasta”, defendeu Freitas.

Ricardo Barros é velho conhecido dos planos de saúde, que financiaram as campanhas dele para deputado. Não é de se estranhar, portanto, as declarações do ministro. “Quanto mais gente puder ter planos, melhor, porque vai ter atendimento patrocinado por eles mesmos, o que alivia o custo do governo em sustentar essa questão”, disse o ministro.

A realização do Ato Público em Defesa do SUS foi uma iniciativa do CNS, do Fórum Suprapartidário de Defesa do SUS e da Seguridade Social e das Plenárias Estadual e Municipal de Saúde. O evento contou, ainda, com o apoio do deputado estadual Carlos Neder.

Da redação com CNS e Vermelho
Publicado em 19/05/2016

Artigo do ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha, critica declaração sobre redução do SUS. Leia na íntegra.

 

É alarmante que a direção apontada pelo novo Ministro da Saúde seja de reduzir o SUS e não enfrentar os desafios para a busca do seu fortalecimento.

Fruto da luta democrática e da capacidade de construir consensos institucionais a partir de necessidades simbólicas do nosso povo, o Brasil assumiu um compromisso inédito para um país de mais de 200 milhões com a criação do SUS: estabelece que a Saúde é um Direito de Todos e um dever do Estado.

Ao longo da sua história, esse Direito vem sofrendo ataques sistemáticos. De um lado por interesses privados e corporativos, no seio de um mercado de produtos, tecnologias e serviços gerado pelo esforço de acesso universal a 200 milhões de pessoas. Do outro, por aqueles que não admitem um Estado que garanta direitos e, sim, defendem um Estado que apenas garanta as condições para os interesses de mercado, incluindo aí apenas as politicas compensatórias necessárias para garantir a sobrevivência dos seus consumidores e um ambiente político de estabilidade.

Esta disputa constante ao longo dos seus mais de 25 anos foi repleta de avanços e recuos, mantendo inconclusos seus desafios estruturantes como: um financiamento sustentável compatível com o esforço realizado por outros países com sistemas universais, responsabilidade sanitária dos 3 entes federativos e consolidar um modelo de atenção humanizado em que a medicalização e a hospitalização não sejam a tônica.

No período mais recente, dois baques para a consolidação do SUS foram a retirada da CPMF, imposto que incidia sobre a parcela mais rica do pais e combatia a sonegação, e as tentativas bem sucedidas subsequentes de reduzir os recursos vinculados.

Apesar disso, avançamos no enfrentamento:

1) de interesses de algumas corporações no debate e implementação do Mais Médicos e todas as medidas de fortalecimento da Atenção Básica;

2) de interesses exclusivos do mercado, com a Lei que estabelece regras para incorporacão de medicamentos e tecnologias (criando a Comissão nacional de Incorporação tecnológica no Sus) e no início da implementação do ressarcimento ao SUS pelos planos de Saúde;

3) de interesses pautados pelo obscurantismo com a ampliação de uma rede de atenção Psicosocial não manicomial, com o nome social no cartão SUS, com a lei que obriga os serviços de saúde a garantirem a atenção integral as mulheres vítimas de violência (profilaxia contra gravidez indesejável, contra DSTs e registro de provas para denúncia à justiça no próprio serviço de saúde )

4) de superação do modelo hospital e médico centrado com a expansao da urgência pré-hospitalar, da atenção domiciliar e dos consultórios na rua, por exemplo.

É alarmante, neste cenário, que a direção apontada pela autoridade máxima do SUS é em reduzí-lo e não enfrentar os desafios para a busca constante do seu fortalecimento. Em um momento em que o país precisa discutir e se mobilizar para reduzir a carga tributária sobre seus trabalhadores e ampliar a participação tributária dos setores mais ricos, dos proprietários de helicópteros, iates e aviões, das grandes heranças, das movimentações financeiras, dos bônus e dividendos não tributados para manter e ampliar o SUS. Um sistema de saúde que, cada vez mais, se depara com o subfinanciamento e os novos custos decorrentes do envelhecimento e da nossa realidade urbana, falar em redução do SUS é um sinal absolutamente contrário aos nosso desafios.

Apesar dos avanços, nossos números não permitem qualquer afirmação no sentido de reduzir o tamanho do SUS . O acesso à saúde ainda é muito desigual. Mesmo com o passo decisivo do Mais Médicos, que garantiu médicos compondo equipes na atenção primária para mais de 60 milhões de habitantes, ainda estamos longe de parâmetros de cobertura similares aos Sistemas universais europeus que nos inspiraram na Europa.

Em 2003, simplesmente inexistiam serviços na rede pública que ofereciam diagnóstico e tratamento integral de alta complexidade em cardiologia, neurologia e oncologia fora das capitais de mais da metade dos estados da federação do país e na quase totalidade dos estados do Norte e Nordeste, por exemplo. E onde existiam, havia uma profunda concentração relacionada ao mercado privado de saúde.

Iniciamos o caminho para superar esta desigualdadede de acesso com os governo Lula e Dilma. Foram políticas de expansão das redes de urgência e emergência, a criação e implantação do SAMU, planos nacionais de expansão de cuidados especializados da Saúde integral da mulher, de rede oncológica, unidades do trauma e cardiologia, expansão dos programas de formação de especialistas, mas o país ainda é muito desigual. Por exemplo, o Brasil é dividido em 436 regiões de saúde . Dessas, 103 possuem serviços de atendimento integral a mulheres com câncer de mama, apenas 15 Unidades federativas têm serviços especializados para todos os procedimentos cirúrgicos de tratamento para coluna e 21 estados têm serviços especializados para todos os tratamentos de cardiologia. Mais acesso ao SUS é um dos desafios cruciais para reduzir a desigualdade social e regional no Brasil.

Não basta crescer, é necessário crescer junto com os que mais precisam, mais vulneráveis. O envelhecimento populacional; características de populações vulneráveis: como aqueles que vivem em situações rua, aqueles que ocupam os espaços rurais, aqueles cuja atividade profissionais ou modos de viver nas cidades tornam seus horários incompatíveis com o uso regular das unidades, contrastes culturais como a população indígena e imigrantes exigem não apenas um SUS maior, mas mais próximo dos modos diversos de vida dos 200 milhões de brasileiros. O SUS precisa crescer em tamanho e em diversidade .

Um compromisso de um SUS maior e com mais acesso não significa compactuar com o que existe de desperdício, de desvio e de gastos excessivos travestidos de acesso universal. Mas é preciso ficar bem claro que os gastos excessivos não tem qualquer relação com as diretrizes do SUS, pelo contrário, são frutos ou de interesses privados não republicanos ou da persistência de um modelo que supervaloriza a subespecialidade ou a incorporação tecnológica critica. O combate ao desperdício ou custos excessivos exigem Mais SUS e não Menos SUS.

Na cidade de São Paulo, o esforço do Prefeito Fernando Haddad em reconstruir a Atenção Básica mostrou uma parte deste caminho. Em 2012, de cada 100 consultas na atenção básica, 24 demandavam encaminhamento para especialistas. Em 2015, além de ofertar 1 milhão a mais de consultas na atenção básica,de cada 100 apenas 12 demandaram encaminhamento para especialistas. No Brasil, o enfrentamento feito pelo Minisitério da Saúde em relação a máfia de órteses e próteses revelou que não é entregando ao privado que se reduzirá o desperdício.

Assim como na cobertura da imprensa internacional sobre o golpe, muitas vezes, a luz da vivência de outros países nos fazem valorizar os avanços que conseguimos com muita luta. Na última semana, dois fatos que vivenciei na batalha em buscar mais qualidade para a saúde da cidade de São Paulo evidenciam o quanto não podemos permitir qualquer passo atrás, naquilo que já foi conquistado na busca de um sistema universal. Um deles, durante o lançamento da nossa política de Saúde para população imigrante, as expressões de defesa do SUS de quem já viveu as exclusões de direitos em outros países. O outro, durante a visita de 14 cidades chilenas à nossa rede, cientes das nossas dificuldades, mas espantados de como garantimos um conjunto de atendimentos e procedimentos aparentemente básicos gratuitamente no SUS -- algo que só ocorre com pagamento no Chile.

A agenda inicial daqueles que assumiram o governo federal sem voto é exatamente aquela que foi sucessivamente derrotada nas urnas em 2002, 2006, 2010 e 2014. Isto só torna cada vez mais cristalino que a chamada "ponte para o futuro" mais parece um episódio da série daquele blockbuster "De volta para o futuro", em que a tal máquina do tempo levava seus personagens ao passado, ao invés do futuro. Para enfrentá-la não há nenhuma máquina produzida pela ficção, mas a realidade concreta consolidada ao longo da história: a luta nas ruas, nas redes e nos espaços institucionais, resistência e muita articulação política para ampliarmos a aliança com a sociedade na defesa dos seus direitos seriamente ameaçados. É uma oportunidade única para todos aqueles que se referenciam na esquerda, que defendem o mínimo de desigualdade e o máximo de diversidade que influenciará nas nossas escolhas do presente e nos caminhos do futuro.

 

Fonte: Carta Maior
Publicado em 17/05/2016

Mais Artigos...

UA-480112034-1