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Entrevista: A importância da Farmácia Clínica para o fortalecimento do SUS e da Assistência Farmacêutica

Saúde

A luta pela valorização da Assistência Farmacêutica passa, entre outros fatores, pela adoção de políticas para o fortalecimento da Farmácia Clínica. O assunto foi abordado em seminário realizado recentemente no Mato Grosso do Sul. Para a farmacêutica e conselheira federal de farmácia, Márcia Saldanha, o farmacêutico tem um papel fundamental e precisa estar "inserido na equipe multidisciplinar, ocupando o seu espaço e ofertando a população o serviço clínico para consolidá-lo no Sistema Único de Saúde". 

Márcia Saldanha é graduada em Farmácia Bioquímica pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, especialista em Farmácia Hospitalar pela UNB, especialista em Citologia Clínica pelo CRF/MS, especialista em Saúde Pública pela ENSP/FIOCRUZ, Especialista em Farmácia Clínica com título expedido pelo SBRAFH e mestre em Saúde e Desenvolvimento na Região Centro-Oeste pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Atualmente trabalha na Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul como Farmacêutica na Coordenadoria de Assistência Farmacêutica Básica. Compõe a Comissão Estadual de Farmacoterapia. É Conselheira Federal de Farmácia pelo Mato Grosso do Sul. Leia, abaixo, a entrevista que ela concedeu ao site da Fenafar. 

Fenafar: A valorização da Assistência Farmacêutica como política pública passa pela consolidação da Farmácia Clínica. Quais desafios estão colocados para a implementação de políticas públicas voltadas para essa área?
Márcia Saldanha: As funções do farmacêutico na Saúde Pública na Atenção Primária à Saúde se dividem entre ações técnico-gerenciais e ações técnico-assistenciais, onde as ações técnico-gerenciais se constituem em atividades meio e são ações de suporte ao processo gerencial da assistência farmacêutica (AF) voltadas principalmente para a logística do medicamento que também dão suporte à prescrição e dispensação. Já as ações técnico-assistenciais, onde se encaixa os serviços clínicos dos Farmacêuticos, visam o cuidado ao usuário, considerando o uso do medicamento, contribuindo para a efetividade do tratamento, seja no âmbito individual ou coletivo por meio de ações voltadas ao paciente e não ao medicamento, baseando-se na gestão clínica do medicamento e se caracterizam por serviços centrados no usuário de forma a garantir a utilização correta de medicamentos e a obtenção de resultados terapêuticos positivos.

Para a implantação de fato dos serviços clínicos farmacêuticos na saúde pública, é necessário o apoio da gestão para que o profissional possua, por exemplo, um local adequado para atendimento; recursos humanos em quantidade suficiente e com isso, disponha de tempo para realizar os atendimentos; recebam gratificação pela prestação dos serviços clínicos à população, a exemplo do município de Campo Grande-MS; dentre outras formas de apoio.

Fenafar: E do ponto de vista da formação do farmacêutico, quais desafios existem para a qualificação do profissional que quer atuar nesta área?
Márcia Saldanha: Entendo que para a consolidação dos serviços clínicos dos Farmacêuticos não só na Saúde Pública, mas em todas as áreas de atuação, é necessário o empoderamento dos farmacêuticos, para que estes se sintam cada vez mais seguros e cumpram o serviço essencial da profissão Farmacêutica, que é o cuidado para com as pessoas.

Um dos grandes desafios que observo, é a luta que vem sendo travada para qualificação dos farmacêuticos já formados, e que não tiveram a prática clínica na graduação, pois possuem dificuldade de conseguirem dispensa do trabalho para se dedicarem às qualificações ofertadas. As dificuldades apontadas são várias, como por exemplo, em virtude de trabalharem sozinhos, sem um substituto, não podem simplesmente fechar a farmácia para irem assistir aula, assim como, muitas vezes são responsáveis por todas as ações técnico-gerenciais relacionadas à Assistência Farmacêutica no município, e não lhes sobram tempo para se dedicarem a cursos de formação na área da farmácia clínica, e nem para desempenhar de fato essa atividade. 

Outro fator a ser analisado, é a metodologia dos cursos que vem sendo ofertados, pois entendo que conteúdo teórico é importante, mas apenas “ouvir como faz”, “assistir aulas virtuais”, não são o suficiente para se obter a experiência necessária para um atendimento clínico de qualidade, é necessário a prática. 

Agora falando da graduação, quando é ajustada a grade curricular do curso de Farmácia, incluindo-se a prática clínica e o estágio desde o início do curso, vem na contramão a oferta de cursos de graduação no modalidade a distância (EAD), comprometendo toda uma luta para melhoria dos serviços prestados a população.

Fenafar: Qual importância do modelo de atenção preconizado pelo SUS para a valorização e reconhecimento da Farmácia Clínica?
Márcia Saldanha: Sabemos que o recurso financeiro para área da saúde é finito e cada vez mais escasso, que a população está envelhecendo cada vez mais e com isso há um aumento das doenças crônicas. Diante disso, o farmacêutico tem um papel fundamental no sentido de orientar a população sobre a correta utilização dos seus medicamentos, diminuindo desperdício do dinheiro público pelo uso inadequado e falta de adesão ao tratamento que podem levar ao agravamento da saúde, internação e consequente aumento nas despesas do SUS. 

O farmacêutico tem que trabalhar inserido na equipe multidisciplinar, ocupando o seu espaço e ofertando à população o serviço clínico para consolidá-lo no Sistema Único de Saúde.

Fenafar: No Mato Grosso do Sul vocês estão bastante adiantados nestes aspectos. Quais medidas adotadas no Estado que você destacaria como as mais importantes.
Márcia Saldanha: A Resolução da SESAU nº 261, de 16 de junho de 2016 criou no município de Campo Grande – MS o Serviço de Farmácia Clínica nas Unidades de Saúde, e nos demais Serviços de Saúde que demandarem da atuação clínica do farmacêutico, bem como estabelecer normas e procedimentos para o seu funcionamento. Hoje, encontram-se em funcionamento 22 consultórios na capital, onde a meta é chegar a 40 consultórios implantados.

O Conselho Federal de Farmácia possui um excelente projeto chamado “Cuidado Farmacêutico no SUS – Capacitação em Serviço” que possui um forte componente prático, voltado à implantação dos serviços. O projeto encerra suas atividades em cada município contemplado com os serviços funcionando, ou seja, os farmacêuticos atuando e a população sendo efetivamente atendida.

Em 2017, o projeto foi implantado em 13 polos representando 85 cidades, envolvendo 820 farmacêuticos participantes, onde foram o Mato Grosso do Sul foi contemplado com  2 (dois) polos, que juntos abrangem dez municípios. Tendo em vista a grande aceitação e a procura do curso, o CFF apresentou a 2ª edição do curso com o propósito de contribuir para a capacitação de mais profissionais com a expansão de serviços farmacêuticos e sua consolidação no SUS, e referente a essa 2ª edição, tivemos mais 1(um) polo montado que é o da região de Três Lagoas.

Em MS foi sancionada em 13 de abril de 2018 a Lei Estadual nº 5.183, de autoria do Deputado Estadual Dr Paulo Siufi, que estabelece diretrizes dos serviços clínicos farmacêuticos no Estado.

Fenafar: O CRF/MS realizou evento para discutir o tema. Como você avalia a atividade e os debates que aconteceram?
Márcia Saldanha: O evento foi realizado pela Secretaria de Estado de Saúde de MS, com o apoio do Conselho Federal de Farmácia e do Conselho Regional de Farmácia de MS.

Agora em 2018 foi a 2ª edição do Meeting Nacional de Farmácia Clínica, assim como a 1ª edição, tratou-se de um momento importante para despertar nos colegas o interesse pela Farmácia Clínica. Como apontado no texto acima, não será em um encontro de 2 dias com palestras dos temas mais variados possível de 1 hora e meia cada que os colegas sairão prontos para implantarem seus consultórios farmacêuticos em seus locais de trabalho, mas com certeza deixou um gostinho de quero mais, abrindo o horizonte destes colegas que muitas vezes moram a 500km da capital e não têm nenhuma ou quase nenhuma oportunidade de se qualificar.

Foi um momento muito importante também, porque tivemos a grata satisfação de contar com a presença do Presidente do Conselho Nacional de Saúde, Dr Ronald Santos, que fez uma brilhante explanação sobre a saúde no Brasil.

O grande diferencial do Meeting realizado pela SES/MS, é que solicitamos apoio do COSEMS para que os Secretários Municipais de Saúde de MS se comprometam a liberar seus Farmacêuticos do SUS para virem para o evento, cujas despesas com a hospedagem e alimentação são custeadas, o que garante a participação de mais de 80% dos municípios de MS. Lembrando que o evento é totalmente gratuito, e é aberto tanto para acadêmicos quanto para profissionais.

Que venha a 3ª edição do Meeting Nacional de Farmácia Clínica.

Da redação
Publicado em 20/06/2018

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